
Quem diria que um cachorro caramelo iria marcar minha carreira?
Ao longo de 2024 e 2025 fui convidado para fazer o storyboard de Caramelo, um filme original Netflix, que te leva às lágrimas e a boas gargalhadas. Mas, eu mal sabia que a equipe iria me chamar para produzir artes que apareceriam na tela, como flipbooks, caricaturas e murais ilustrados, além de artes para camiseta oficial da equipe e até a animação de créditos finais!
Nesse texto, vou detalhar os bastidores dos meus processos e produtos finais:
- 1) O filme Caramelo
- 2) Storyboard de Caramelo
- 3) Produzindo os 3 flipbooks
- 4) Animação de créditos
- 5) Grafites do Léo
- 6) Caderno de rascunhos do Léo
- 7) Extra: Camisetas e canecas da equipe
1 – Sobre o filme Caramelo
Eu sabia que Caramelo seria um sucesso logo quando me debulhei em lágrimas ao ler o roteiro, que conta a história de um vira-lata caramelo, abandonado em uma estrada. Por 3 anos, Caramelo (estrelado por Amendoim) aprendeu a sobreviver nas ruas, quando conhece Pedro (Rafa Vitti), um cozinheiro que sonha em ser chef. Quando Pedro recebe um diagnóstico, essa amizade invade a sua vida, mostrando para ele o verdadeiro valor do agora.
O filme foi um hit mundial! Logo no terceiro dia do lançamento, alcançou o primeiro lugar mundial da Netflix! Na sua primeira semana de estreia, já teve mais de 17.3 milhões de visualizações, alcançando o Top 3 Global de filmes mais assistidos da semana, sendo o Top 1 em língua não-inglesa! Em 81 países, o filme apareceu entre os preferidos da semana. A melhor semana de estreia de um filme original brasileiro na Netflix!!
Vários portais noticiaram o longa-metragem. Caramelo virou paleta de cor de carro da Chevrolet, tema de música da cantora Iza e até criaram uma campanha nacional de adoção de cães no site oficial do filme.
Ao imaginar as cenas para o storyboard, meu coração palpitava, porque eu sabia que esse filme teria esse potencial gigantesco.

2 – Storyboard de Caramelo
Era o segundo filme que o diretor Diego Freitas havia me chamado para fazer storyboard. Pensei: “A primeira vez é uma chance. A segunda, significa que fui bem na primeira!”.
Mas em Caramelo, diferente do primeiro filme, Diego me chamou não só para desenhar, mas para participar da “soft-pré” – uma etapa antes da pré-produção, onde somente as diretorias participam, envolvendo dias de brainstorm baseado nas análises de cada cena.
Durante as reuniões, eu dava opiniões e desenhava ao mesmo tempo. Pude contribuir com meus conhecimentos sobre roteiro que acumulei ao longo da minha carreira como quadrinista e produtor de podcast narrativo.
Também aprendi muito sobre cenografia com Larissa Cambauva (Diretora de Arte) e sobre câmeras e lentes com o Kauê Zilli (Diretor de Fotografia). Por vários dias, sonhamos juntos sobre quais seriam as cenas ideais e como fazê-las. Me senti respeitado, pois todos ali ponderavam e, algumas vezes, acatavam ideias que eu dava. Me senti parte – ainda que pequena – da obra.


Foram mais de 1.100 quadros feitos ao longo de 18 dias. Fiz o storyboard de mais da metade das cenas do filme. Isto porque focamos nas cenas mais complexas.
A maioria das diárias fiz presencialmente. Estar no escritório era importante para comunicação e também para eu entender melhor as ideias de cenas. Por exemplo, pude presenciar conversas sobre cenografia, casting, efeitos especiais, equipamentos, locações e muitas dessas conversas utilizavam o storyboard como pontos de partida. Além de, claro, conhecer parte dos atores, como Rafa Vitti que ganhou o meu respeito pela humildade e simpatia com todos da equipe. Ao final de um longa conversa sobre nossas paixões por cachorro, percebi o quanto Vitti era ideal para o papel de Pedro.

Além disso, produzi artes para algumas cenas que demandavam menos detalhes de câmera, para definição de clima e cores.




Ao longo do tempo, percebo que storyboard é muito mais que uma tradução do roteiro em planos. Storyboard tem também a função reflexiva: a decupagem das cenas é o momento de o Diretor discutir graficamente os planos, quase como um teste, onde se planeja a narrativa visual do filme.

Com o storyboard também refletimos em conjunto sobre como gravar essas cenas, quais equipamentos, locações, quantas diárias e quais efeitos sonoros serão necessários para aqueles planos.


O storyboard também tem a função de comunicação interna: são esses os quadros que a direção vai usar para consultas em reuniões com os demais departamentos e para expressar suas ideias para seus superiores.
Por fim, ele também tem a função de planejamento: no dia da gravação, imprimem o storyboard, e, quase como uma checklist, gravam os planos desenhados.
3 – Produzindo os 3 flipbooks
Já na pré-produção, a Diretora de Arte, Larissa Cambauva, notou meu trabalho. Logo, me chamaram para fazer uma animação feita em papel! A ideia era que eu produzisse flipbooks, que são livretos animados que, ao serem folheados rapidamente, criam uma ilusão de movimento (uma animação!).
O personagem Léo (Bruno Vinicius) adora desenhar e dá flipbooks para Pedro, cada um passando uma mensagem cômica, mas com profundidade emotiva. A minha missão foi produzir esses 3 flipbooks, com cerca de 90 páginas cada. O primeiro passo foi mostrar para a direção propostas de design dos personagens (character design).

Me vi obrigado a fazer testes, uma vez que não encontrei tutoriais de como fazer um flipbook. Depois de muita pesquisa e tentativas, comprei o papel da gramatura ideal (110g), fiz os cortes e, sob a mesa de luz, propús essas histórias em pilotos. Com poucos quadros, para a direção aprovar.



Uma vez aprovados, fiz a seleção de cores, compra das canetinhas e mão na massa! Foram cerca de 3 semanas de produção, inclusas as idas à papelarias comprar canetinhas, já que cada página consumia muita tinta.
No primeiro flipbook usei a técnica da rotoscopia em alguns movimentos, pois eu queria que os passinhos de funk fossem fiéis (procurei alguns vídeos de tutorial de dança, inclusive!). Para a explosão final, me inspirei na animação de bomba dos games The Plucky Squire e Legend of Zelda.
No segundo flipbook, usei como referência movimentos do Pernalonga, no episódio de beisebol. Além de usar os princípios básicos da animação para o pingar da bolinha do Caramelo. Os passos do cachorro retirei de estudos que fiz do movimentos da minha cachorra, Moana.
O terceiro flipbook foi o mais trabalhoso! Me inspirei em movimentos de combate feitos em animes como Naruto e personagens que voam na animação “A Viagem de Chihiro”. A coloração me custou mais de 6 canetinhas azuis.
4 – Animação de créditos
Pra minha felicidade, fui convidado para atuar com a Equipe de Pós-Produção. A ideia era que, depois do fim do filme, a animação continuasse o destino de Caramelo, de uma maneira engraçada e fantasiosa. Como se o Léo inventasse o final alternativo do longa-metragem. O diretor Diego Freitas fez questão de me chamar para esse trabalho, pois ele queria que essa animação final remetesse aos desenhos no estilo do flipbook do Léo.
Inicialmente pensamos em fazê-la em forma de flipbook real, filmado. Mas seria complexo de encaixar os nomes e geraria muito mais custos. Nesse processo, já elaborei os design dos personagens.



Imagem: Primeiros designs de personagem que produzi. Porém, ainda precisei repaginar esse visual.


Imagem 2: Novos conceitos dos personagens, agora estilizados como se fossem feitos de materiais tradicionais. Decidimos substituir o personagem humano por um polvo (apelidado por mim de Zé Polvinho 🙃 ).
Optamos por fazer uma animação digital quadro-a-quadro (frame-by-frame) com estilo que remeta a materiais simples. Nessa animação, Caramelo interage com personagens que apareceram no filme: as pinschers Maiara e Maraisa como cavalos-marinhos; o vira-lata Fiapo de Manga como um baiacu; e um motoqueiro entregador de comidas como um polvo.





Usei o programa Krita para desenhar essa animação. Principalmente por conta de seus pincéis (brushes) que remetem a materiais que o Léo teria em seu estojo. Para o contorno dos cenários e do Caramelo, criei um pincel exclusivo que se assemelha a canetas esferográficas (tipo caneta BIC).

A ideia era fazer o Caramelo se transformar na sua grande paixão: tubarão! Usei dos meus conhecimentos que adquiri em minha graduação em Biologia para definir os elementos dos planos de fundo: 12 espécies de animais nativos da costa brasileira.












Imagem: Na ordem as espécies: salema, tartaruga-verde, raia-chita, marimbá, peixe-espada, budião, peixe-papagaio-zelinda, peixe-frade, sargentinho, água-viva (urtiga do mar de leite), caranguejo-eremita, baleia jubarte e raia-prego.
A trilha sonora oficial da animação, “Funk do Caramelo“, foi feita pela genial compositora Dona Nyna.
5 – Grafites do Léo
Para manter a identidade visual das artes feitas pelo personagem Léo, também fui escalado para criar artes no estilo graffiti. Na primeira ilustração tentei expressar o mesmo traço que fiz nos flipbooks. Fiz questão de colocar esse fundo de tubarão, inspirado no logo de Sonic Adventure 2.



Imagem: contrariando o que muitos pensaram, esse muro existiu de verdade! Foi feito nos fundos do Mercado do Pari, no Brás. Porém, a arte foi apagada assim que terminaram as gravações, para evitar vazamentos.
Na segunda ilustração, expressei a paixão do Caramelo pelo salgadinho, ou melhor, prato especial de Pedro: coxinhas. Para as fumaças e a aglomeração de coxinhas usei como referência a técnica dos clones de Naruto.


Criei essas artes digitalmente e a aplicação do desenho no muro e trailer ficou por conta do grafiteiro JH.
6 – Caderno de rascunhos do Léo
Dentro da ideia de figurino para Léo, a Larissa Cambauva (Diretoria de Arte) me demandou um objeto que teria a importância de reforçar essa veia artística do personagem. A ideia é que ele andaria com um caderno de rascunhos (sketchbook) na mão e ficasse desenhando em suas horas vagas no hospital.
Minha principal referência foi meu próprio sketchbook. Surrado, com adesivos e escritas personalizadas. Como Léo é grafiteiro, chamei Weslley “Lelo” Silva, grafiteiro da zona sul de São Paulo, para me ajudar nessa missão. Também confeccionei adesivos exclusivos para colar na capa do caderno.





Dentro do caderno, por capricho e verossimilhança, eu resolvi fazer um extra: desenhei 30 desenhos variados. Nele, me aprofundei sobre qual seria a história de Léo, estabeleci as fases de sua vida e que tipo de desenho ele faria. Imaginei Léo desenhando nas calçadas, ônibus e quebradas.




Nas primeiras páginas, ilustrei um Léo mais soturno, melancólico e pessimista. Porém, nas folhas seguintes temos ilustrações mais coloridas e estilizadas, como se ele fosse aprendendo a ser otimista ao longo dos dias de tratamento. Nos últimos 10 rascunhos, as cores ficam ainda mais intensas, quando Léo conhece Pedro e Caramelo. As letras com estética marginal foram feitas pelo Weslley “Lelo”. Dentre essas ilustrações, fiz a caricatura de Pedro (Rafa Vitti). A direção gostou tanto dessa caricatura a ponto de usá-la em duas cenas! 😍 Além de usar um outro desenho desse caderno para ilustrar uma carta escrita por Léo.



Imagem: algumas páginas internas do sketchbook de Léo, em sua fase mais otimista.



Imagens: artes do caderno de Léo que, de fato, apareceram no filme.
7 – Extra: camisetas e canecas da equipe

Como se não bastasse, a Michelle Acquesta, da Coordenação Executiva me procurou! Esse time estava preparando uma gravação sustentável, sem copos descartáveis. Por isso, ela bateu em minha sala perguntando se eu não tinha alguma arte sobrando para canecas e camisetas. Folheei meu sketchbook (tal como o Léo), onde fiz meus primeiros estudos para o storyboard, e lá estava a arte pronta do Caramelo vestido de tubarão!
Escaneei, colori digitalmente e aquela arte (e suas derivações) seriam usadas na camiseta oficial da equipe, canecas, cartazes de entrada de salas, ordens do dia e até nas claquetes!







Imagens: Minha ilustração na claquete do filme, nas mãos de Paola Carosella, Ademara, Diego Freitas e eu, respectivamente.
Muito além do storyboard, no fim das contas fiz mais 9 artes no filme. Assim, passei pelos departamentos de Direção, Fotografia, Arte, Pós-produção e Executivo. Pude acompanhar essas diversas etapas desse filme incrível e fazer o papel de “veia artística do Léo”.
Como diz o pôster do filme, “há encontros que transformam vidas“. Meu encontro com o filme Caramelo abriu portas para potencialidades artísticas que eu sempre treinei e, dessa vez, pude expressar numa obra maior, encantadora, de impacto global.
Muito obrigado, Caramelo e equipe!
Agradecimentos especiais: Joisi Freire e Diego Freitas, por acreditarem em mim. Larissa Cambaúva, Michelle Acquesta, Kauê Zilli e Gabriela Ruffino por enxergarem meu trabalho.